Os livros também tem sua moda

18/01/2013 as 09h07h Os livros  também tem  sua moda

Observando a origem da palavra, moda vem do latim modus e significa costume; é também “uma forma passageira e facilmente mutável de se comportar”. Dessa forma, a moda pode ser considerada um retrato de determinada comunidade em determinada época.

De maneira automática, pensamos em tecidos, cores, formatos e texturas quando falamos em moda. Mas se os modismos expressam o comportamento, a moda, então, envolve muito mais que isso. Estamos falando de opiniões, de hábitos difundidos. A moda, na verdade, engloba uma série de fatores. Por exemplo, a moda emo: quem a segue ouve certas músicas, veste certas roupas e tem preferência por certos filmes - e esse conjunto identifica as pessoas dentro da comunidade em questão.Cientificismos à parte, os livros também seguem a sua moda. Vamos voltar um pouco no tempo e vamos imaginar o Rio de Janeiro cerca de 170 anos. As pessoas copiavam os costumes lisboetas - que, por sua vez, eram copiados da deslumbrante Paris. Em pleno calor tropical, as moçoilas usavam camadas e camadas de anáguas sob as vestes e os homens andavam de camiseta, camisa, colete, paletó e gravata. Era como se o sofrimento pela adoção de um costume quase impossível para um nativo do Trópico de Capricórnio o aproximasse mais da vida glamourosa europeia. As mulheres, educadas para exercerem o papel de esposa, sonhavam com a vida perfeita, composta por um marido rico, filhos saudáveis e uma casa confortável. E no meio de todo esse devaneio coletivo, as histórias publicadas para entreter esse público eram, logicamente, sobre amores impossíveis que haveriam de dar certo na última página.
 
O tempo passou e, pouco depois da virada do século, uma nova moda se instalou. Agora era a vez de deixar a Europa de lado e olhar mais para esse novo país que se formava a partir de retalhos de outros países. A Semana de Arte Moderna juntou, em um mesmotempo e espaço, artistas preocupados em firmar a identidade brasileira, e pela primeira vez, falava-se em cultura 100% nacional. Então vieram os livros que retratavam o povo simples, a vida na roça, os atos justificados pela conhecia o Brasil.
 
Resumindo a ópera, cada moda se impõe tentando suplantar o que já é considerado passado. O engraçado é que, de tempos em tempos, ela mesma se recicla. Se os sonhos em rosa-bebê eram considerados ultrapassados, agora eles voltam com força total - só que em tons mais sombrios. Tons de cinza. A moda agora são os amores impossíveis que, inevitavelmente, ultrapassam as barreiras. Bem, Danielle Steel já fazia isso décadas atrás. Seus personagens eram ricos, bem sucedidos, bonitos, galantes e sempre se apaixonavam por alguma mocinha não favorecida financeiramente. A partir daí, o que se seguiu foi uma coleção extraordinária de variações sobre o mesmo tema. Por que, então, esse tipo de história ainda vende? Em pleno século XXI, cercados de tecnologia e informação, o que ainda não se conhece ou o que não foi dito sobre a desventura de amar? Eu não diria que o problema é que falta algo a ser dito. Eu arriscaria dizer que o que nos falta hoje é justamente essa pitada de romance necessária para tornar a vida mais leve. Nada tão Pollyanna assim, mas o mundo cão estilo Cidade Alerta cansa. Daí haver uma fuga para um mundo fantástico e perfeito (mesmo com todos os defeitos).  A saga Crepúsculo, por exemplo. Ela emula um conto de fadas com todas as suas características: seres míticos, mocinha indefesa, uma escolha e sua consequência... Nada diferente de Cinderela, Rapunzel, João e Maria ou qualquer outro conto infantil criado para educar as crianças dos séculos passados, embora eu ainda não tenha identificado qual a lição que essa história queira deixar. Que o amor verdadeiro tudo vence, tudo supera? Certo. Mas o amor a quem? A si mesmo? Porque Bella Swan dá as costas para a família e ignora todas as leis do bom senso ao se envolver, casar e engravidar aos 18 anos de um morto-vivo. Se essa moda pega...Mas, de qualquer modo, houve benefícios, não posso negar. De alguma forma, as meninas, antes tão fortes, tão autossuficientes, voltaram a perceber que ser feminina não significa ser feminista. Voltaram a sonhar em rosa-bebê. Podem usar calça e andar de skate, mas o sonho de ser feliz ao lado de alguém está lá, confrontando a tendência moderna de priorizar a carreira em detrimento de uma vida social feliz. Isso explica o porquê de tantas mães acompanharem as filhas adolescentes aos cinemas para assistirem juntas à saga: para realizarem em família suas fantasias de adolescente. Agora mais uma moda retorna: a moda da literatura picante. Entre as décadas de 70 e 80, a coleção Sabrina - Julia - Bianca fez muito sucesso, mesmo tendo aquelas capas molengas e páginas de papel reciclado. Não furtasse o tal livrinho das mãos da doméstica e o escondesse debaixo do colchão, para lê-lo às escondidas e sonhar com os romances, as paixões ardentes, os beijos sob o luar ao som do mar quebrando na costa... Ai ai...Essa moda havia passado quando as gerações se distanciaram da fantasia e criaram uma realidade tão dura que não deixava espaço para isso. Mas como nem tudo é dinheiro, carreira e relacionamentos virtuais, eis que essa moda ressurge, como todos os elementos modernos que trazem verossimilhança à trama: dinheiro, carreira, tecnologia... Viu? Os detalhes se adaptam à moda, mas a base das histórias é sempre a mesma. Desta vez, o amor é tido como impossível porque, em lugar de mortos-vivos apaixonarem-se por humanos, uma mocinha ingênua e inexperiente envolve-se com um homem feito, calejado por uma infância tenebrosa. Esses dois mundos se chocam violentamente quando o casal se envolve e ela começa a descobrir os segredos dele. E como o instinto manda, ela procura mudá-lo / moldá-lo para que ele se salve de si mesmo (é inerente ao gênero feminino querer mudar o homem). Junte-se a isso altas doses de sexo, um pouco de humor e voilà!, temos mais um conto de fadas moderno. Pronto, sucesso  explicado: mais uma vez, as leitoras projetam suas expectativas em situações perfeitas e elas voltam a sonhar em cinquenta tons de... rosa-bebê.Alguém consegue adivinhar qual será a próxima moda? 
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