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RETRATISTA DA NATUREZA

Rui Rezende fotografa em poesia e pinta de luz céus, relevos, veredas, florestas, seres e culturas. A sua arte está muito presente em projetos de decoração brasileiros, traduzindo sensações potentes de vida e beleza. A autoria desse fotógrafo com 22 anos de carreira se revela em cenas inéditas de paisagens intocadas e em perspectivas ainda pouco exploradas da Bahia, em outros lugares do Brasil e do mundo. Natural de Amargosa, o ex – vendedor de limões é um persistente explorador terreno e alado. Tal como Ícaro, na mitologia grega, que desafiou as leis do homem e da natureza munido de suas asas, Rui Rezende também dominou o ar diversas vezes para captar com a lente da câmera marcas na terra somente possíveis de serem vistas de cima. Na busca por uma descrição menos prosaica desse sujeito “avesso” ao urbano, o “Artigo Final” do escritor Tiago de Melo nos empresta as palavras de uma utopia que faz muito sentido para descrever um fotógrafo tão senhor de si. A liberdade do fotógrafo de natureza Rui é algo vivo e transparente, tal como fogo e rio, e sua morada é, pois, o coração dele próprio. O QUE É SER FOTÓGRAFO DE NATUREZA?
Existem vários tipos de fotografia de natureza. Eu sou muito motivado a fotografar os lugares mais remotos da Bahia, do Brasil e do mundo e apresentar essas imagens para o maior público possível. Por diversos motivos, as pessoas nem sempre podem viajar a esses lugares, então, é a minha missão estar em lugares fantásticos e compartilhar imagens desses lugares com elas.É PRECISO CONHECER SOBRE FAUNA, FLORA, CLIMA…?
É preciso ter uma programação, saber a época do ano correta para ir ao lugar certo, na hora certa, com a iluminação certa. Devemos entender o comportamento dos animais… Quando eu faço as minhas expedições, desbravo um determinado lugar e, só depois de observá-lo, eu retorno numa época mais apropriada para fazer a foto. Esse é o grande diferencial de um trabalho bem feito na fotografia de natureza.
QUE OBSTÁCULOS VOCÊ ENFRENTA NESSE PROCESSO?
Já precisei nadar em rios com água completamente gelada para chegar do outro lado da margem, usando um colchão inflável para transportar o equipamento. Vencer sede, fome, frio, calor e virar noites caminhando no meio da mata são dificuldades que a gente passa constantemente.

VOCÊ FOTOGRAFOU MUITO A PAISAGEM BAIANA. O QUE VOCÊ JÁ VIU?
Eu sempre fotografo os aspectos do ser humano, a vida cotidiana, as manifestações culturais. Fauna, flora, paisagens, montanhas, grutas e rios. Os lugares mais inóspitos e mais difíceis de acessar são os que mais me atraem. Na Bahia, eu já fotografei representativamente o estado inteiro, de norte a sul, de leste a oeste, todos os cantos da Bahia. Não em todas as cidades, mas já fui em todas as regiões da Bahia, com certeza.

E FORA DAQUI?
Eu já visitei vários estados do Brasil em todas as regiões do país. Já fotografei com mais ênfase o Nordeste, a região Sul e o Centro-Oeste do Brasil. Além disso, já fotografei diversos países da América do Sul e o México, na América do Norte. Na Europa, também já estive em países como, Itália, França, Suíça, Portugal, Espanha, Inglaterra e Holanda. Já fui à China e à África do Sul.

NO QUE VOCÊ ESTÁ TRABALHANDO ATUALMENTE?
Em um livro de fotografias com fotos aéreas do estado da Bahia inteiro. Há mais de quinze anos venho trabalhando nesse
projeto.

EXISTEM FOTOS SUAS ÚNICAS DECORANDO AMBIENTES INCRÍVEIS. ESSAS FOTOS SÃO SEMPRE AUTORAIS OU FEITAS SOB ENCOMENDA?
Em raríssimas vezes, me “vendo” para fazer algum trabalho. Eu só faço fotos do que eu quero, da maneira que quero. Portanto, são fotos autorais, não é?! Fotos que eu inventei, dirigi, produzi e fiz. Uma grande parte da minha fotografia autoral também está voltada para a fotografia de arquitetura. Qualquer fotografia minha pode se transformar em um quadro para decorar ambientes, basta a pessoa escolher. Arquitetos, designers e o público de modo geral solicitam a minha fotografia e eu mando executar quadros para atendê-los com uma obra perfeita para cada ambiente.

PODE FALAR MAIS SOBRE ESSA RELAÇÃO ENTRE FOTOGRAFIA E ARTE?
As pessoas falam muito em fotografia de arte, mas eu me considero um retratista das maravilhas existentes no mundo. Mesmo que eu crie algo novo e produza uma foto com elementos artísticos, ainda assim não me considero um artista. Eu sou um retratista da natureza.
COMO A FOTOGRAFIA E A ARQUITETURA SE UNEM EM SEU TRABALHO?
O meu trabalho se completa quando as fotos estão nos quadros ou impressas nos livros, nas casas das pessoas, decorando ambientes e fazendo-as mais felizes.

AS SUAS FOTOGRAFIAS TÊM SEMPRE UMA HISTÓRIA?
Sim, elas têm um porquê, um sentimento, um significado. Eu não faço fotografias vazias. Todas fotos tem uma história por trás dela. Então, quando eu tenho a possibilidade de falar com o cliente, com a pessoa que vai ter o quadro com a minha foto em casa, informo que aquele quadro é mais do que uma coisa bonita pra decorar o ambiente, ou seja, é uma peça
que transmite sensação e reflete uma produção artística, uma criação. Então, é muito mais do que uma simples imagem.

EXISTE UMA HISTÓRIA POR TRÁS DA FAMOSA CAMISA NA CABEÇA QUE ESTÁ NA MAIORIA DOS RETRATOS EM QUE VOCÊ APARECE?
Quando me veem com essa camisa na cabeça, as pessoas afirmam que é um símbolo, uma marca e que eu só seria reconhecido dessa forma. Na verdade, o uso da camisa na cabeça é porque tenho pouco cabelo na cabeça e o suor com frequência escorre pela testa, chega à lente dos óculos e fica difícil de limpá-los. Às vezes, é preciso lavá-los com água e sabão. Então, eu uso a camisa na cabeça para proteger a lente dos óculos. Se fosse pela careca, por exemplo, eu poderia usar um boné. Mas não, eu prefiro usar camisa; ela segura o suor e, dessa maneira, eu consigo trabalhar melhor, sem sujar a lente dos meus óculos, já que eu estou sempre com eles.
VOAR PARA FOTOGRAFAR E FOTOGRAFAR COM DRONE, COMO É A EXPERIÊNCIA?
Bom, na minha leitura, fotografar com drone é a mesma coisa de jogar videogame “dirigindo” um carro. Você joga videogame dirigindo o carro e você está vendo tudo ali no videogame. Então, é tudo de mentira. Com o drone, você só enxerga o que a câmera do drone enxerga. Não tem nem como comparar. Quando você está voando com a câmera na mão, lá de cima, a qualquer momento você pode fazer manobras com avião ou helicóptero para buscar fotos de coisas e lugares que você nem imaginava encontrar naquele voo. Sem falar da sensação única de voar e fotografar que, na minha opinião, é a melhor coisa do mundo.

O QUE MUDA PARA QUEM PERCEBE O TRABALHO FINAL?
Na verdade, não é exatamente o que a pessoa vê na obra final, mas o que você sente quando você faz. A qualidade da fotografia, a emoção, a sensação, isso é uma coisa que só se consegue com a câmera na mão.

QUE TIPO DE IMAGEM VOCÊ NÃO FAZ?
Eu não gosto de fotografar as pessoas em situações de miséria. Acho que já tem fotógrafo demais fazendo isso. Eu faço registros de pessoas em situação de vulnerabilidade, mas enfatizo a beleza que também pode haver nessas condições. Eu considero que, mesmo em suas situações de dificuldade, as pessoas têm uma beleza, uma plasticidade, um sorriso, um olhar que brilha.
QUAL O SEU ENVOLVIMENTO COM AS QUESTÕES POLÍTICAS E ECONÔMICAS DO NOSSO TEMPO?
Eu evito ao máximo misturar o meu trabalho com política porque, realmente, a gente está vivendo num mundo muito polarizado e as pessoas, às vezes, não têm a maturidade de entender um ponto de vista diferente do ponto de vista da própria pessoa. O que eu tento fazer é ajudar as pessoas no campo social, em situações e lugares diferentes.

RUI POR ELE MESMO 

“Eu penso que o meu trabalho se situa nas áreas de arquitetura e design de interiores quando eu possibilito que, por meio de um livro de fotografias ou de um quadro feito sob medida, as pessoas vivenciem belezas fantásticas da natureza e de modos de vida tradicionais no seu ambiente particular. É um grande privilégio e uma grande realização profissional poder estar em lugares incríveis mundo afora e compartilhar essas experiências através de imagens que serão transformadas em quadros capazes de decorar, de transmitir paz, amor e sentimento de pertencimento às pessoas”.

RUI REZENDE

 Email: [email protected]

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